É praticamente impossível imaginarmos um mundo sem som. Pensar em um planeta onde as pessoas não se comuniquem pelo ato da fala - ou que não consigam ouvir o canto dos pássaros e as notas musicais -, deixaria-nos mais tristes e insensíveis.

O som expressa sentimentos, produz ações e reações e, até mesmo, pode contar toda a história da humanidade sem expressar uma única palavra. Tomemos como exemplo o século XX: possível expressá-lo, desde os primórdios, passeando pela Belle Époque, com os sons que traduzem o surgimento do telefone, dos automóveis/aviões e o projetor do cinema em funcionamento. O período sangrento das guerras também pode ser facilmente expressado por sons: dos navios militares ao mar, da explosão de bombas em territórios inimigos, da derrubada de prédios e edificações nos países atingidos, das armas e gases tóxicos e até mesmo o som expelido pelos seres humanos mutilados, gemendo de dor e sangrando através de sussurros. Também o tempo compreendido como Guerra-Fria, com sons de tanques, submarinos e poderosos aviões, que caracterizaram a corrida armamentista promovida pelas duas grandes potências mundiais da época, que dividiram o planeta entre simpatizantes do capitalismo e do socialismo. O som do rádio, da televisão, das grandes fábricas e indústrias almejando cada vez mais o lucro desesperado e até mesmo a popularização da internet e os barulhinhos produzidos por aparelhos eletrônicos caracterizam uma época para o planeta.
"Um tom pra gritar. Um tom pra calar. Um tom pra dizer. Um tom para a voz. Um tom para mim. Um tom pra você. Um tom para todos nós."Caetano Veloso - Um Tom
E se falarmos em música, então, em canções, melodias, letras entoadas com desespero, com ódio ou que exprimem paz e amor, teremos um retrato ainda mais fiel de cada época da História do mundo e, porque não, do Brasil também. O iê iê iê, a bossa nova, o movimento tropicalista, a MPB, a jovem guarda e a inquietude dos expoentes do rock brasileiro na década de 80 traduzem, em melodias, tons, ritmos e frequências aquilo que de melhor e pior aconteceu no nosso país em cada época da história.
Talvez hoje o sucesso de tantas bandas coloridas, também conhecidas por happy rock, que exprimem nada mais do que banalidades e problemas superficiais amorosos em suas letras e composições, sejam utilizadas futuramente para explicar o bom momento de ascensão social e aumento das liberdades individuais pelo qual o Brasil vem passando. Não faria sentido, hoje, exprimir letras de revolta contra os governantes, contra a opressão, o massacre, a prisão indiscriminada de cidadãos que apenas buscam sua liberdade de expressão, porque se compararmos o período atual da história com a época da ditadura, observaremos que, de fato, evoluímos e somos mais livres que outrora.
Assim, não só a música, mas todos os sons que compõem a vida cotidiana da humanidade, por si só, conseguem exprimir muito do que foi e de como viveu o homem ao longo dos anos.
Leonardo Contin da Costa